Na semana passada estava muito ocupada preparando o material para a revisão de Direito Constitucional que faria com os adoráveis acadêmicos da terceira fase. Enquanto lia sobre as imunidades dos parlamentares, hipóteses de perda de mandato, perda da nacionalidade, perda e suspensão dos direitos políticos (ufa!), organização do Poder Judiciário e afins – pensando, é claro, nas prováveis questões que o professor cobraria na última e derradeira avaliação – assistia televisão. Sim, em regra não consigo estudar nos locais adequados e indicados pelos especialistas (leia-se, no caso, minha mãe Oo”), tipo um lugar claro, calmo, com uma mesa, cadeira e afins. É, prefiro muito mais lugares confortáveis, como o sofá da minha casa, e nem me importo se tem gente falando ao redor. Ninguém perguntou, e nem é interessante, mas também gosto de ler e estudar escutando música alta. Novamente, minha mãe acha um absurdo u.u”
Porém, como disse, no referenciado momento de estudo, assistia televisão e quem falava era ele, José Luiz Datena. Estava num programa da rede RECORD (eca). Chato como sempre. Falando coisas desnecessárias como sempre. Sensacionalista. Enjoativo. Um chato mesmo. Enfim, os apresentadores davam boas vindas e homenageavam (Oo”) Datena, que saiu da BAND e foi para a RECORD (bom para a BAND!). Ah, e é claro que esse ainda não é um blog de fofoca :}
Depois fui ver se havia o verbete sobre o chato na desciclopedia, afinal, é ÓBVIO que muita gente deve concordar comigo sobre ele. Pois tinha: aprecie AQUI.
AQUI encontrei também um site que colacionou algumas pérolas de sua autoria. Vejamos:
“Não dá pra combater o crime com flores”
— Mostrando a leveza do combate ao crime.
“No Brasil, o Presidente da República é quem manda menos”
— Tirando uma com a cara do homem que mais manda no Brasil.
“O corpo ainda está morto no carro?”
— Datena preocupado com a morte do cadáver.
“Se eu fosse político, ia fazer um ‘regaço’ aí… E levava o Kajuru comigo”
— Convidando outro papagaio para mostrar cidadania.
“Vivemos em um mundo-cão”
— Sobre o fato de vivermos em um mundo-cão.
“Não dá pra relaxar e gozar!!”
— Imitando a também filosofa Marta Suplicy.
“É… Kassab… ô, meu filho…!!”
— Indignado com a prefeitura paulistana.
“Eh… Eh… Isso é uma barbaridade!! Não dá pra viver assim!! Onde é que estão as autoridades?!”
— Sobre qualquer coisa que aconteça.
“Num acidente com essas proporções eu duvido que haja sobreviventes! “
— Datena, logo que a Band começou a cobrir o acidente da TAM, tranquilizando os parentes e todo o Brasil.
“Que narigão!”
— Sobre um jogador de vôlei italiano, na sua primeira (e última) narração de jogos de voleibol.
“Devia ter sido um puta cara desocupado. “
— Quando ainda era repórter de campo, respondendo a uma pergunta do narrador Silvio Luiz sobre quem inventou o sanduíche.
“Cadê a reportagem, ô, Latino? Cadê a reportagem? Cadê a reportagem???”
— Sobre seus funcionários eficientes e qualificados.
“Eh, eh… São uns vagabundos!”
— Sobre criminosos e afins.
“Vagabundos, sem-vergonhas!”
— Sobre criminosos e afins.
“Pô, meu, pô, bo-bo-bo-bo-bo-botatatatatata na tela, bobobota na tela, meu filho!”
— Pedindo para colocar as imagens na tela.
“Po-po-po-po-põe na tela, ô-ô-ô-ô-ô, Latino! Divide a tela, divide a tela, Márcio Campos!”
— Conversando com seus colegas de trabalho.
“Esses ca-caras estão de brinca-ca-ca-deira! “
— Revoltado.
“Pô… mas peraí… pô-pô-pô, meu… “
— Filosofando…
“É-é-é-é… Me ajuda aí, pô! “
— Concluindo o pensamento.
“Hein, e agora? Hein, o lugar desse vagabundo é na cadeia! Hein, esse safado, bandido, ladrão, cafajeste… “
— Xingando algum criminoso no estúdio de gravação
“Atenção, temos con-con-confirmações de que as torres gêmeas ca-ca-caíram pois possuem sistema de auto-autoimplosão para casos de incêndio sem controle”
— Datena, sempre ele, cobrindo ao vivo o 11 de Setembro.
“Você é um gênio! “
— Elogiando os comentários do Neto.
“Essa é a grande Realidade! Entendeu?!”
— Falando da grandeza da realidade.
Fofocando falando sobre o indivíduo com uma colega da faculdade, fiquei sabendo que a ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) tinha conseguido uma liminar que obriga a rede Bandeirantes a exibir o direito de resposta da associação em relação àquele conhecido episódio do “quem tem deus no coração não faz uma coisa dessa” (kkkkk! a situação é muito séria, de fato, mas não consigo conter o riso quando ouço frases desse tipo).
Para quem não lembra mais, vez que a situação remonta ao ano passado, era pra ser só mais um programa – ruim, como sempre – naquele 27 de julho de 2010: IBAgens, IBAgens, tragédias, “vagabundo, sem vergonha”, bla bla bla e, é claro, ofensas aos ateus. Só que dessa vez o criativo Datena resolveu elaborar uma enquete para que as pessoas respondessem se acreditavam em deus ou não. Quando viu que muita gente votava “não” rsrs!, Datena se desesperou. Surtou mesmo.
“Como nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia.”
“Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus.”
“É só perguntar para esses bandidos que cometem essas barbaridades pra ver que eles não acreditam em Deus.”
No site da ATEA tem todo o criminoso discurso do apresentador (veja AQUI). Para esse post não ficar gigante, veja apenas mais alguns trechinhos:
(…) É o fim do mundo. Por isso nós temos que acreditar em deus porque deus bota o capeta lá pra baixo, velho. Esse é o grande detalhe.”
12’30″
“- Olha, eu continuo dizendo que eu acredito que as pessoas que estão comigo, me assistindo há tanto tempo (12, 13, anos) fazendo esse tipo de jornal, eu acredito que as pessoas comunguem da mesma crença que eu: deus. Não importa se você é judeu, se você é muçulmano, se você é católico, se você é evangélico, vocês acreditam em deus. Eu parto dessa pressuposição. Quem não acredita em deus não precisa me assistir não, gente. Quem é ateu não precisa me assistir, não. Mas se eu fizer uma pesquisa aqui se você acredita em deus ou não é capaz de aparecer gente que não acredita em deus. Porque não é possível, cada caso que eu vejo aqui é gente que não tem limite, é gente que já esqueceu que deus existe, que deus fez o mundo e coordena o mundo. É gente que não acredita no inferno. Esse é o detalhe”.
“Então, ô Márcio Campos, é inadmissível. Você também que é muito católico, não é, não é possível… isso é ausência de deus. Nada justifica um crime como esses, não Márcio?
- É, a ausência de deus causa o quê, Datena? O individualismo, o egoísmo…
- Claro!
- Só pode ser coisa de gente que não tem deus no coração. De gente que é aliada do capeta. Só pode ser. Faz a pesquisa aí, bota a pesquisa no ar: Você acredita em deus? Sim ou não? Eu tenho certeza que vai aparecer gente que diz não. Quer apostar comigo? Mas a grande maioria vai com a gente, não é? Porque esses crimes só podem ter uma explicação: ausência de deus no coração, não é?”
(…)
Quase mil ateus. Quase mil ateus, gente que não respeita deus. Entendeu? Provável que entre esses ateus exista gente boa que não acredita em deus, não é? Mas que não é capaz de matar alguém. Mas é provável que tenham bandidos votando até de dentro da cadeia! Entendeu? Né? Vou provar pra esses caras que o bem é maioria. Eu quero ver 30 mil votos ali, no mínimo! 30 mil votos! Se acredita em deus ou não. [...]
“Muitos bandidos devem tar votando ali do outro lado. Tem gente que não é capaz de matar uma barata. Não acredita em deus mas não mata uma barata. Agora, tem muito bandido votando do outro lado [23315 a 1072]. Quase 1070 pessos. Não é? Quem não acredita em deus geralmente não tem limites. Esse sujeito era um cara violento que gostava de confusão e beber. Assim era descrito o pedreiro que matou a criança de dois anos no colo da mãe. Na tela.”
“É. Se você não acredita em deus, você acredita em quem? Você mesmo? Se você não acredita em deus, nunca matou ninguém, nunca fez mal pra ninguém, muito bem, parabéns. Mas quem mata com crueldade, quem enterra vivo, quem estupra, quem violenta criança, também não acredita em deus. Não acredita. Pode até falar que acredita mas não acredita. Entendeu? Essa é a história.
Pois bem. Depois dessa, várias ações foram ajuizadas contra Datena (mais de 40 só em SP), Márcio Campos e a própria BAND. Numa delas, foi concedida uma liminar em favor da ATEA, que obriga a emissora a conceder direito de resposta para a Associação. Isso aconteceu no dia 16 de junho (acompanhe
AQUI). Porém, parece que o
TJ-SP cassou. O que importa, e o que acho mais interessante, é o conteúdo da decisão. Veja, muito inovadora:
Vistos. Trata-se de ação de obrigação de fazer cumulada com indenização por danos morais. Os autores alegam que o apresentador José Luiz Datena e o comentarista Márcio Campos teriam, em tese, ofendido a honra dos autores ao associar ateus a pratica de alguns crimes. Asseveram que o apresentador teria dito que “o sujeito que é ateu, na minha modesta opinião, não tem limites. É por isso que a gente tem esses crimes aí”, “os bandidos que matam, mas que matam com prazer, esses não acreditam em deus também”, “isso é um exemplo típico de um sujeito que não acredita em deus: matou um menino de dois anos de idade, tentou fuzilar 3 ou 4 pessoas” e, ainda, teria associado ateus a pratica de crimes como violentar “um bebê de dois, três meses de idade” e bater “em velhinho e violentar velhinha”. As ofensas proferidas pelo réu se revelaram demasiadamente ofensivas no tocante aqueles não crentes em deus. O fumus boni iuris, demonstrado pelas provas dos autos, reflete a necessidade de assegurar o direito de resposta, o qual é previsto pelo inciso V, do artigo 5º, da Constituição Federal, com a finalidade de elucidar fatos e informações que foram equivocadamente prestadas através do programa de televisão. As declarações proferidas pelo apresentador José Luiz Datena foram de conteúdo ilícito claramente contrariando o disposto no artigo 221 da Constituição Federal, segundo o qual as emissoras de televisão atenderão aos valores éticos e sociais da pessoa e da família e terão preferência a programas de finalidades educativas e informativas. As manifestações foram de cunho preconceituoso posto ser a não crença uma espécie de crença e, portanto, assegurada pelo Estado nos termos do inciso VI, artigo 5º da Constituição Federal. Imagine se a ateia Angelina Jolie dissesse que, quem tem deus no coração, é assassino de um menino de dois anos de idade e tentaria fuzilar 3 ou 4 pessoas. Aliás, elenco uma lista de ateus que deram contribuição inestimável a humanidade, ao contrário do apresentador: Freidrich Niezsche, Albert Einstein, Voltaire, Galileu Galilei, Augusto Comte, Charlie Chaplin, José Saramago e o próprio inventor da lâmpada elétrica sem o qual o imprudente apresentador não teria existência. Imagina se Albert Einstein dissesse que, quem tem deus no coração, é assassino de um menino de dois anos de idade e tentaria fuzilar 3 ou 4 pessoas. O periculum in mora, por sua vez, decorre da possibilidade de consolidar o dano à imagem daqueles não crentes em deus e de esvaziar o efeito do direito de resposta caso os autores sejam obrigados a aguardar o trânsito em julgado da ação. Como bem observam os autores: o lapso temporal “faria com que as declarações preconceituosas feitas pelos jornalistas distanciassem-se em demasia das marcas negativas ainda recentes que imprimiram em seus telespectadores, sendo até possível que o programa Brasil Urgente, no interregno, deixe de ser transmitido”.(…) Deverá a ré, por conseguinte, conceder os autores o direito da resposta pelo tempo e horário correspondente ao da duração das ofensas, sob pena de multa diária de R$ 10.000,00, nos termos do parágrafo 4º, do artigo 461 do Código de Processo Civil. (…)
Eu acabei de citar a decisão, mas esse trecho merece ser reiterado, grifado hauehae:
Aliás, elenco uma lista de ateus que deram contribuição inestimável a humanidade, ao contrário do apresentador: Freidrich Niezsche, Albert Einstein, Voltaire, Galileu Galilei, Augusto Comte, Charlie Chaplin, José Saramago e o próprio inventor da lâmpada elétrica sem o qual o imprudente apresentador não teria existência. Imagina se Albert Einstein dissesse que, quem tem deus no coração, é assassino de um menino de dois anos de idade e tentaria fuzilar 3 ou 4 pessoas.
A ação continua correndo. Vamos acompanhar. Quem tem coragem (e estômago não muito sensível) assista ao novo (Cidade Alerta novo?!) Programa do Datena, agora na RECORD. É muito bom! Bom para os dias em que estiver de mau humor e com a intenção de rir um pouco das piadas contadas por lá.